quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cheiro de filme bom


No início, vem o título: O Cheiro do Ralo. Logo depois, um close em uma bunda feminina andando pela rua. Não demora muito, e aparece um protoganista insuportável, cuja frase para definir sua vida é "Eu não gosto de ninguém".
Como esses elementos, pode parecer difícil gostar de um filme desses. Mas bastam alguns minutos para notarmos algo diferente. A começar pelo Selton Melo, que deixa de lado seus cacoetes costumeiros para encarnar um crápula, um canalha. Ele é Lourenço, dono de uma loja de penhores que sempre avalia com um certo desprezo as mercadorias recebidas. Do banheiro do local de trabalho, vem um cheiro insuportável do ralo, que parece impregnar sua vida cheia de falhas e ausências.
Obcecado por uma mulher - ou melhor, pela bunda dela -, ele vai levando sua vidinha ordinária. Pela loja, desfilam tipos que vão do trágico ao hilariante. O roteiro tem diálogos que fazem você querer ouvir algumas coisas novamente. Até mesmo as grosserias costumeiras de Lourenço são engraçadas.
Tem figurino, tem direção de arte, tem fotografia. E conta bem uma história, criada pelo quadrinista Lourenço Mutarelli. Já conhecia os grafismos dele, e nunca imaginei que o cara pudesse criar uma história tão cruel com tanto humor negro e que ainda ela virasse filme. Para completar, ainda deu uma de ator, sem dever nada prá ninguém, no papel de segurança da loja, com seu indefectível terno vinho.
Para essa avalanche de filmes estilo Rede Globo, um antídoto pode vir de criações como o Cheiro, onde tudo é feio, mas o resultado final é lindo.

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