terça-feira, 23 de setembro de 2008

De olhos abertos para a cegueira do mundo


Em um sábado à noite, saio perturbado da sessão de Ensaio sobre a Cegueira. Estou na Cidade Baixa, em Porto Alegre, e começo a observar alguns detalhes que não enxergava mais. Na Rua Lima e Silva, um guardador de carro pergunta se eu, assim como ele, achava que um carro estacionado estava com os faróis acessos. Respondo que sim e ainda emito a opinião de que o dono do veículo iria ter problemas para dar partida. Sigo meu caminho e percebo que, antes do filme, talvez aquele guardador estivesse invisível. Logo depois, quase sou atropelado por um veículo que dobra na Rua da República. Ele não havia dado o sinal da conversão, e eu, não o vi. Cegueira momentânea?
Segui pensando na visão que temos do mundo. O diretor Fernando Meirelles tem a sua, apresentada em Ensaio sobre a Cegueira, adaptação para o cinema da obra do escritor português José Saramago. Li o livro há uns bons anos e posso dizer que o cineasta (e seus roteiristas) tiveram trabalho para filmar uma história cujos espaço e tempo são indefinidos, repleta de metáforas e com personagens sem nome. O básico: uma epidemia de cegueira que atinge a humanidade. A partir da perda do sentido da visão, vem a barbárie.
Com medo do contágio, o governo decide isolar os primeiros "infectados" em uma espécie de manicômio abandonado. Lá, eles têm que se acostumar a novas regras e hierarquias. Enquanto uns propõem a igualdade de direitos e deveres, outros crêem que podem governar pela força e humilham os restantes. É interessante, tanto no livro quanto no filme, ver essa transformação do homem em um animal que só vive para saciar o apetite de seu instinto. Despojados das facilidades modernas, "os seres humanos" voltam a ser bichos, em busca das necessidades básicas, como comida, bebida e sexo.
A cegueira é branca, muito bem retratada pela fotografia do filme. É o brilho da luz que cega, é o excesso de informações desordenadas que confunde, e não deixa ver como o mundo como ele realmente é. Isso só pode dar em caos. Não é o que estamos vivendo?
Meirelles fez algumas concessões - amenizou a cena dos estupros, por exemplo -, mas não todas. E conseguiu tirar boas atuações de Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover e Alice Braga. Com produção globalizada e filmagens não menos espalhadas (São Paulo foi uma das locações), Ensaio, com o perdão do trocadilho, faz a gente enxergar muitas coisas. Mesmo que em, algumas partes do filme, o choque de realidade nos faça fechar os olhos.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Parte IV

A história já passou pelo Homero, pela Ale e por aqui. Agora, a 4ª parte está lá, pelas mãos do Chagas. A próxima é a Fani.
Alguém viu o Rouxinol?

domingo, 6 de julho de 2008

A história, parte 3



A parte 1 da história você encontra no blog do Homero.
A parte 2 tá no da Alexandra.
A parte 3, depois de um parto, está aqui.
Em breve, a parte 4, que será tarefa do meu grande amigo Paulo Chagas.


Antes de entrar no bar, vomita uma mistura de estrogonofe com musse de maracujá. Não conseguiu entrar no beco. Uma senhora gorda passa, diz algo parecido com “torto” e cospe, mas ele não dá bola. Passa a mão no rosto. Quer uma bebida gelada pra tirar o seco da garganta e o gosto de podre.
Não há ninguém na porta, então ele entra direto. Supresa. O lugar é muito menor do que parece do lado de fora. À direita, num canto escuro, uma jukebox toca “Over the Rainbow”.
Ainda meio tonto e com gosto de guarda-chuva na boca, ele se aproxima do balcão, que fica a uns 5 metros das únicas três mesas do bar. A luz negra domina o ambiente. Na última mesa do fundo, há uma mulher em um vestido branco, que se destaca naquele ambiente escuro e fétido.
Que sede! Sentado em um banco à frente do balcão, um homem de terno verde- musgo e chapéu de panamá balança a cabeça, num cumprimento. Ele não retribui, só pensa em algo bem gelado. Pede uma cerveja e uma dose de gin tônica para o longilíneo barman, que usa uma camiseta branca sem mangas.
Só depois de os copos serem servidos é que ele nota o bigodinho bem aparado e uma tatuagem no antebraço esquerdo: “O destino o trouxe aqui. Deus o levará.” é a frase dentro de um coração sem flecha e sem cor.
Ele larga uma nota de R$ 50 e vai sentar de frente para a moça do vestido branco. Nem dá tempo de terminar o primeiro gole de gim, e ela se levanta e sai porta afora. Os cabelos são longos e loiros. Um doce aroma de alfazema fica no ar.
A porra da cerveja está quente. Ele então seca o copo de gim e vai para o banheiro, atrás de uma porta estilo “saloon”.
Dentro do WC, um forte cheiro de merda. Numa peça sem porta, a latrina está com uma água marron transbordando. Ele resolve, então, mijar no mictório, que já não dá vencimento e também está entupido. Tudo gira.
Sobre a pia, uma ponta. Meio entorpecido pelo fedor que invade suas narinas e acende a baga com seu Bic. A fumaça ainda está nos pulmões quando a porta se abre. É um velho, de feições magras. A barba está grande e malfeita. Os cabelos, soltos, ultrapassam os ombros. Veste um tipo de túnica longa e avermelhada. Sem saber o que fazer, ele tenta sair. O senhor coloca a mão em seu braço e puxa uma faca. Começa a gritar:
- Não deixe Dolores ir atrás do rouxinol! Não deixe Dolores ir atrás do rouxinol!
A porta se abre novamente. Surge uma pistola cromada, na mão de alguém com terno preto e Rolex. Ainda seguro no braço pelo velho, o homem fecha os olhos e ouve um tiro.

CNH: proibida para pobre


A primeira habilitação no Rio Grande do Sul:
R$ 129,90 - 30 horas de aulas teóricas (R$ 4,33 cada hora)
R$ 360,75 - 15 horas de aulas práticas (15 x R$ 24,05)
R$ 21,62 - Locação do carro para os exames práticos
R$ 41,99 - Exame de saúde
R$ 41,99 - Avaliação psicológica
R$ 41,99 - Exame teórico
R$ 73,04 - Exame prático de Direção
R$ 32,86 - Expedição da CNH

R$ 744,14 - Total

Em Santa Catarina, a primeira CNH sai por R$ 560. Pra começar, os exames custam R$ 30 cada. É uma diferença.

Se as contratadas para fazer os exames no Rio Grande do Sul conseguiam executar o serviço e ainda desviar milhões, a carteira podia ser mais barata, não? Demorou. Não é à toa que os CFCs parcelam, aceitam cartão de crédito etc

Um pingo de ressaca moral

Protesto na frente do Bar do Pingo (foto de Charles Guerra/Diário)


Fatos:
1) No sábado retrasado, dia 28, um jovem administrador de empresa de 25 anos não concordou com a conta no Bar do Pingo, na esquina da Astrogildo de Azevedo com a Floriano Peixoto, no Centro de Santa Maria. Terminou a noite com alguns dentes quebrados e com o maxilar partido em dois.
2) Na quinta-feira à noite, mais de 100 pessoas fazem protesto em frente ao Bar do Pingo, propondo boicote coisa e tal, por causa da violência. O trânsito foi fechado, os jornais divulgaram fotos...

Conseqüências:
1) Advogado da vítima fecha acordo com o bar, para não haver processo. As bases ainda não são conhecidas.
2) Sábado, meia-noite. Uma fila de quase 40 pessoas se forma do lado de fora do bar. Todas querendo entrar.

Desejos:
1) Que as casas noturnas sejam fiscalizadas de verdade pelas autoridades, a começar pelos seguranças.
2) Espero que nenhum dos que estavam na fila no sábado passado tenha comparecido ao protesto. Seria muita hipocrisia.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O cocô fala




Você nunca se sentiu incomodado por estar "trancado"? Numa linguagem mais chula, ficou um tempo sem conseguir cagar? Pois é, além de causar um mal-estar, afeta o lado psicológico. O cara fica meio chateado, não consegue fazer as coisas direito, parece que carrega um peso nas costas (neste caso, literalmente)...

E descobriram, mesmo, o valor do marronzinho (ou begezinho, se você estiver com "churrio"). Tanto que os norte-americanos Anish Sheth e Josh Richman lançaram o livro O que Seu Cocô Está Dizendo a Você - Montes de Fatos Importantes Sobre a sua Saúde. Uma crítica de Ludmilla Balduino no UOL Tablóide dá uma idéia do quão sensacional foi escrever sobre merda, mesmo que seja para depois alguém dizer que a obra é uma merda.


Da resenha de Ludmilla tiro algumas coisas sensacionais. A começar por uma parte da introdução do livro: "Ainda que não seja uma conquista facilmente alcançável, essa espécie de 'Cocô-Foria' nos proporciona um êxtase, uma sensação de invencibilidade, que alguns já comparam com uma iluminação mística".

Vejam alguns tipos de cocô classificados pelos autores: "Os Que Flutuam e Os Que Afundam", "O Cocô Empedrado", "O Pingente", "O Cocô Que Põe Fim à Lua-de-Mel", "Cocô Já-Te-Vi" (também chamado de "Hambúrguer Vegetariano" ou "Sobras de Ontem"), "Número 3" (Fazer Xixi por Trás, Cocô Líquido, As Grandes Corredeiras etc)... Sabem qual personagem do livro explica tudo isso? O Dr. Barroso kkkkkkkkkkkk

Para quem despreza o que sai da bunda e dá descarga sem nem dar tchau, é bom repensar seus conceitos. E tem o lado lúdico também: vai dizer que o cocô não é um bom amigo com quem se poder falar merda. Dizer porra nenhuma já fica complicado. Dar uma mijada em alguém também é muito grosseiro. Tá, exagerei na escatologia. Mas, pensando bem, me fez bem escrever esse post. Que está uma merda.

(agradecimento ao Deni por essa descoberta)

O livro já está venda por aí a R$ 17,90, é só jogar no Google que você acha.
Leia o release da editora aqui.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A história

Não me esqueci que tenho uma história para continuar, dos blogs do Homero e da Alexandra. Já comprei vinho para a semana, acho que vai dar certo.

O diploma

Estava marcada para agora de manhã uma manifestação de estudantes de Jornalismo pela exigência do diploma para o exercício da profissão.
Confesso que sou meio indiferente a essa questão, mas por causa de uma situação bem pessoal. Antes de receber o canudo propriamente dito, trabalhei quase quatro anos em redação e um em assessoria de imprensa. Trabalhei e aprendi muito mais do que no curso da UFRGS. Para não dizer que não tirei nada da Fabico, ficvaram muitas amizades e muito senso crítico, principalmente por causa de professores como Giba Assis Brasil. Sandra de Deus, Wladimir Ungaretti e Virginia Fonseca. Infelizmente, foram poucos momentos de brilho. Eu também dei a minha contribuição, sendo um péssimo aluno.
Só não larguei mesmo o curso porque precisava me formar para poder trabalhar na "legalidade" e, claro, poder assinar carteira. E porque uma professora acreditou que eu podia. Enquanto a formatura não acontecia, diversas oportunidades foram passando. Perdi pra gente que sabia menos que eu por causa da falta do diploma.
Então, pra mim, tanto faz. Mas é uma opinião bem pessoal. O certo é que não qualifico ou desmereço ninguém por causa de seus "títulos". O contrasenso disso tudo é cursar uma especialização e gostar dela.

Noite de São João


São João deve estar excomungando os participantes da 4ª festa junina (se não me perdi nas contas) que é realizada em Minas do Camaquã, em Caçapava do Sul. É uma comemoração, digamos, extremamente pagã. Vinho, cerveja, ovelha, porco, carreteiro, feijão e, dizem, até tequila. Mas acho que o pessoal está ficando mais velho... Tomba mais cedo ultimamente. Para quem tinha de trabalhar no domingo, como eu, ficou algo faltando. Mas foi bem divertido, como mostram algumas fotos feitas por este que vos escreve.
















A volta

Passei praticamente um mês fora desse espaço. Porque fui viver a vida real. Várias consultas para ver como anda a saúde (por enquanto, tudo bem), trabalhos de aula (quase em dia, finalmente), diversas andanças para fazer documentação nova (agora tenho uma identidade decente, CNH renovada e passaporte) e um tempo para namorar (essa, a parte boa). Sempre tenho muita coisa pra fazer (o que inclui trabalhar e cuidar da casa), mas acho que consegui me organizar. Por isso, o blog está voltando à ativa. Espero que não pare mais.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Ela merece



Interrompo o jejum de postagens (outra hora eu explico o motivo) para dar os parabéns a minha amiga Elaine (aí em cima na foto, à direita, claro), que ganhou o Prêmio Fatma de Jornalismo Ambiental, junto com Edélcio Lopes, ambos do jornal Correio Hoje, de Videira (SC), pela matéria Pinheiro Brasileiro. Além de tudo, levou um checão!
Ela merece, ela merece...
Tá, depois de todos esses elogios, vc tem algum pra emprestar?
Beijo, amiga, e parabéns de novo. Precisamos comemorar juntos. Já tô procurando nos classificados um fígado para alugar, para quando você aparecer por Santa Maria ou eu for pra Videira.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

www.procon

Sou vítima do meu próprio blog. Vou lá nos favoritos, acho o santaporto e clico. O que eu recebo em troca? Um pop up comercial! Mercado Livre!
Fui lá ler nos "termos de serviço" e não fala nada em publicidade às minhas custas. Tá certo que eu não pago nada pra ter um blog, mas nem por isso tenho que dar visibilidade (leia-se "grana") pra algo que não curto. Quando é que vão inventar o Procon da Internet?

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Jogo no MP3

Esqueci meu radinho em Santa Maria, mas fui pro Estádio Olímpico com meu MP3, achando que teria de escutar o jogo na PopRock. O que não me agradava muito. Mas tive uma grata surpresa: a Rádio Guaíba FM surgiu com a transmissão da AM na hora da partida. E fico sabendo que, daqui a alguns dias, a Gaúcha também vai para a FM. Demoraram para descobrir que a maioria das pessoas hoje só tem FM, seja no MP3 ou no celular...

No estádio



Sábado, final de tarde, reencontro com o Olímpico, em Porto Alegre. Aquela velha história: o jogo pode até não ter sido um espetáculo, mas não há nada como clima de estádio. Mais de 25 mil viram Grêmio 2x0 Naútico. Torcer é uma religião.

*

O ingresso mais barato é R$ 15, pra quem é "sócio torcedor". Para o restante dos mortais, R$ 30. Futebol já foi um esporte mais popular.

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Bebida alcóolica está proibida nos estádios. A moda agora é encher a cara antes de entrar. Mas aí o porre tem tempo limitado. Coincidência ou não, nenhum bêbado veio me chatear no jogo.

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Na arquibancada, ninguém senta. Quando eu era piá, a torcida levantava só nos lances de perigo. E ninguém mais grita "olha o mijo!" pro cara da frente que está de pé. Fica todo mundo na mesma.

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Muito mais crianças, muito mais mulheres. E elas também xingam o juiz. Só não gritam "gostoso!" pra ninguém.

*

A torcida Alma Castelhana (aquela da avalanche) ganhou espaço, justamente por não ser organizada. Não pára um minuto. As organizadas (Super Raça e Torcida Jovem) ainda resistem, em número muito reduzido ao de outrora.
Ainda no tempo de adolescente, eu e o Tiago - vizinho e colega de colégio - fomos nos associar numa dessas organizadas. Era tanta regra que desistimos: chegar 2h antes do jogo, não sentar, não ouvir rádio...

*

Pouco mais de 24 horas depois do jogo, já são 11 vídeos no You Tube relacionados a Grêmio x Náutico (um deles está aí no alto). Sinal do tempos.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Tudo trancado


Definitivamente, a cena daí de cima é uma das coisas que não dão saudade de Porto Alegre. Experimente sair de carro nos horários em que todo mundo resolve fazer o mesmo. Do túnel da rodoviária até o começo da Tabaí-Canoas (BR-386), foi uma hora e meia. O que, sem tráfego, dá pra fazer em 15 minutos. Isso que nós até demos sorte. Podia ser bem pior, já que era véspera de feriadão.

A caveira do Indy



O tempo foi implacável com o personagem Indiana Jones, que volta 19 anos depois. Não que Harrison Ford esteja fora de forma. Nem que Steven Spielberg tenha perido o timing. Quanto a esses dois, sem reparos.
Ford ainda pode ser um herói de primeira. E Spielberg ainda sabe entreter como poucos e tem completo domínio das cenas de ação. Mas Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal peca no roteiro. O problema não é o objeto do desejo - a caveira de cristal -, mas a chatice de algumas personagens, como as de John Hurt e Karen Allen (aquela mesmo de Caçadores da Arca Perdida).
A vilã, sim, é de respeito: Irina Spalko (Cate Blanchett) é uma cientista soviética conhecida como a "favorita de Stalin". Em plena era da Guerra Fria, Indiana consegue fugir dos russo e é levado para uma floresta da América do Sul por um jovem Mutt (Shia LaBeouf, de Transformers), que o procura para salvar a mãe (Karen) e um arqueólogo (Hurt). No decorrer do filme, segue a busca pela caveira de cristal e por um reino perdido que dá poderes a quem o encontrar.
Na comparação, com os outros, O Reino da Caveira de Cristal perde. Mas ainda assim diverte, pois o Indy está lá com sua jaqueta de couro, seu chicote e o seu já conhecido medo de cobras. Só não acho que seja o caso de um quinto filme da série.

Bichinhos





Um é o gato Chiquinho Roese, que se apaixonou pelo chulé do meu All Star.

O outro é o cachorrinho do primeiro suspeito preso na Operação Minotauro. A propósito, o homem garantiu que alguém iria levar comida e água para o bichinho, enquanto estivesse na cadeia.

Operação: reportagem


Apenas meia hora depois de ter encerrado a jornada de trabalho na terça, já estava na estrada, rumo a Porto Alegre, acompanhado pelo motorista, o Zeca, e o fotógrafo Fernando Ramos. Eram 21h30. Até chegar na minha casa porto-alegrense, 1h. Beijos no pai e na mãe, afago no gato coisa e tal. Até conseguir dormir, 2h.

Às 4h, tocou o despertador no celular, mas não dei muita bola. Quinze minutos depois, veio o reforço.

- Ô, Luiz, tu não tinha que acordar às 4h? - disse o pai.

Foi só o tempo de tomar uma ducha e chamar um táxi. Saí no seco. O relógio marcava 4h43 quando entro no Hotel Continental, na frente da rodoviária. A equipe está no restaurante do hotel, tomando café. Fico meio preocupado, porque o encontro com os policiais civis de Santa Maria estava marcado para as 5h30, mas em Novo Hamburgo. Chegar lá é fácil, mas eu não tinha nem idéia de onde ficava a Central de Polícia. O Zeca e o Fernando, muito menos.

Não esquentei muito a cabeça, resolvi me sentar para tomar um café. Afinal, como dizia a minha avó, "saco vazio não pára em pé". Uma xícara de café, uma fatia de pão integral com manteiga e queijo, uma colherada de mel e dois pedacinhos de mamão papaya. Eu não estava hospedado, mas achei que ninguém ia complicar. Ledo engano. Antes de deixar o recinto, um funcionário do hotel veio pedir para eu "acertar o café". Tá, tudo bem, faz parte. O problema foi o preço cobrado: R$ 19 (!). A empresa vai pagar, mas é um abuso, não? Se eu soubsesse, tinha enchido os bolsos com pães e frutas...

A vida segue, e a caravana pega a estrada rumo a Novo Hamburgo. Chegamos às 5h30 na delegacia. Foi bem fácil porque ela ficava bem do lado da BR-116, que àquela hora não tinha movimento algum. O dia continuava escuro, e o Fernando Ramos já fazia suas primeiras imagens (na foto aí de cima). Um equipe da sucursal da RBS TV também pintou por lá.

Logo na saída, a primeira confusão. Achávamos que tínhamos de seguir o delegado, mas não. O quente da história estava com outra equipe. Daí foi um "pau" pra alcançar os policiais, com um pedágio no meio do caminho até Sapiranga pra complicar. No fim, deu tudo certo.

Na frente de um prédio de 11 andares no Centro de Sapiranga, os policiais se armavam e colocavam coletes à prova de bala. Parêntese: em operações como essa, de combate a sonegadores, quase nunca são disparados tiros. É diferente de casos encolvendo traficantes ou assaltantes de banco, por exemplo.

O porteiro franqueou a entrada no prédio, mas já tomou um calor dos policiais. Os agentes perguntaram se ele conhecia o suspeito que seria "visitado". Gaguejando e tremendo, o homem só se explicava, dizendo que trabalhava ali fazia apenas dois meses e não conhecia ninguém. Porteiro liberado, vamos em oito no elevador: quatro agentes, repórter e câmera da TV, eu e o Fernando. Oito num elevador! Talvez tenha sido o momento mais arriscado do dia.


Agora, o momento mais tenso foi quando os policiais começaram a tocar a campainha e bater na porta do homem-alvo. Não pelo perigo, mas pela demora. Esse tava num sono ferrado. Um dos agentes se preparava para dar um pé na porta, mas não precisou. Olha, acho que ele iria mesmo quebrar o pé, pois a espessura da porta não era pouca bosta.

Nosso suspeito atende a prova só de cueca e com a cara toda amassada. Não reage e ainda ganha o direito de se vestir antes de ser algemado. Depois, os policiais começam a dar uma vasculhada por cima, em busca de documentos. Não dá meia hora e já estamos fora do luxuoso apê.

Ciceroneados pelo repórter da TV, cuja família é de Sapiranga, fomos para outro ponto. Numa casa de dois pisos e pátio generoso. Estava sendo preso um motorista. A casa não era dele. Fomos informados pelo dono, que não estava muito feliz com a presença da imprensa. Ainda deu tempo de acompanhar mais dois suspeitos saindo algemados do mesmo prédio, em outro local.

De lá, fomos para a DP de Sapiranga, para o registro das prisões. A essa altura, a história já estava toda na cabeça. Logo voltamos para a estrada, não sem antes tomar um capuccino no posto em frente à delegacia. Destino: Zero Hora.

Dessa vez, a 116 já estava atrolhada. Era 10 e pouco quando consegui chegar na redação para começar a escrever. A única pausa foi do meio-dia à 1, para lamoçar em casa. Depois, tocamos direto. Teve até coletiva no Palácio da Polícia, em que uma repórter loira (não tenho nada contra, pra ficar bem claro) ficava brigando com o fotógrafo pelo celular, só porque ele foi parar na Polícia Federal (!?).

A alforria só veio às 6h da tarde, depois de muitos telefonemas e algumas paradas para responder a dúvidas dos coleguinhas que iriam usar meu material. Fazendo as contas, eu já estava há 13 horas trabalhando. Mas feliz.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Programa de índia

Como é bom ser surpreendido, ficar meio desestabilizado por conta de algo. Positivamente falando. Nem conhecia muito bem a lenda do surgimento de Santa Maria. Só sabia que tinha uma tal de índia Imembuy. Mas, agora, aprendi da forma mais lúdica possível.

A sensação se chama Musical Imembuy. Com canções e coreografias, conta a história do amor entre a índia Imembuy e o branco Rodrigues. Dessa união, nasceu José o primeiro santa-mariense. Como bem disse a Tati, uma das coisas bacanas é a escolha por uma forma moderna e fora do convencional para falar da criação de Santa Maria, do conto de Cezimbra Jacques.

Uma rapaziada do street dance se mistura com meninas do balé clássico. Junta aí vozes conhecidas da noite santa-mariense. Uma orquestra que não pode ser enxergada (está abaixo do palco), mas que faz você se arrepiar. O batuque irresistível da turma do projeto Cuica. Figurino hip hop-hippie. Tudo isso no Theatro Treze de Maio.

Enfim, uma salada que deu muito certo. Saiu da cabeça do professor Orlando Fonseca e é dirigido pelo também profe Bebeto Badke. Poderia falar de mais gente, mas aí o post iria ficar grande. 100% de Santa Maria. Quase tudo perfeito. Desde os detalhes da iluminação (na hora em que o bandeirante é capturado, repare no vermelho violento) até a harmonia entre dança clássica e moderna.


No final do espetáculo vem um refrão: "Ibitory, Ibitory, Alegra o Nosso Viver, O Nosso Lugar é Aqui, Em ti Queremos Crescer". Todo mundo no palco, vozes unidas... é de emocionar. Mesmo sem ser santa-mariense de nascença, saí orgulhoso do Theatro.

É o post mais bairrista que eu já fiz. Tem motivos. Santa Maria está completando 150 anos neste sábado. E eu já estou há cinco anos na Ibitory-retan (Terra da Alegria), como era chamada no tempo da Imembuy. O Rio Grande do Sul tem centenas de municípios, e fui parar justamente numa cidade que faz aniversário no mesmo dia que eu. Se não fosse jornalista, ganharia um feriado de vez em quando...

***

Dia 30 tem mais, na Praça Saldanha Marinho. E é bom mesmo. Não pirei ou fiquei mais sentimental pela proximidade do aniversário: a Tati Py e o Cassol também gostaram do Imembuy. Confere lá.


sexta-feira, 9 de maio de 2008

On/off

A nostalgia de hoje vem do rádio.
Tudo começou na cozinha da casa dos meus avós, pais da minha mãe, no bairro Partenon, em Porto Alegre. De um Telefunken ligado na tomada, minha avó ouvia a Farroupilha, e o vô, a Gaúcha. Aliás, o seu Luiz Alberto costumava dormir com um rádio portátil colado no ouvido. Sempre na área esportiva.

Peguei gosto pelo coisa. No Transglobe do meu irmão, numa era paleontológica pré-Internet, ficava fascinado ao ouvir línguas estranhas para um menino de 10 anos. E ficava horas na escuta de emissoras de outros estados.

Daí não vivi mais sem rádio. No estádio, por exemplo, não pode faltar o radinho. Por todo esse sentimento, jamais vou jogá-lo no juiz. E me acostumei com rádio AM. Por força do ofício de jornalista de notícias factuais, não vi nada parecido em termos de imediatismo. Nem um meio tão próximo da vida real. Bem mais que a TV. Por isso, não largo essas emissoras que são toscas, sim, mas que tem seu lado verdadeiro.

Claro, também tenho meu lado FM. Mas, hoje, com a possibilidade de carregar um caminhão de músicas em um pequeno tablete, já está bem enfraquecido. Foi-se o tempo, numa época estritamente analógica, que a Ipanema FM, de Porto Alegre, foi referência. À noite, Katia Suman tinha um programa com muito rock n'roll. Como o Led Zeppelin nunca faltava (a música de abertura do horário era, inclusive, Misty Mountain Hop), era impossível não escutar. A rádio também tinha a característica de rodar as músicas inteiras, sem cortes, sem remix e sem "barulhinhos" que identificavam a emissora. E a Katia ainfda ficava lendo matérias inteiras de uma distante Folha de S.Paulo (hoje ao alcance de um clique), trazendo novidades. Ainda por cima, ela tinha comentários ácidos e engraçados, falando um portoalegrês dos mais típicos.

No fim, viciou. E sempre houve uma espécie de sonho de trabalhar em rádio. Mas, no jornalismo, acabei enveredando para a escrita. Agora, às quartas e às sextas pela manhã, perto das 9 e meia, mato a sede da latinha com alguns segundos na Itapema FM de Santa Maria. É só uma chamadinha, falando o que vai sair no jornal no dia seguinte. É uma rapidinha, mas é boa.

Eu iria até comentar que o mundo seria mais perfeito se os aparelhinhos de MP3 tivessem também rádio AM embutido. Mas percebi que esse artigo existe. Não é Brastemp a marca, mas acho que satisfaz alguns desejos.

Não quero que as AMs desapareçam. Mas também lamento o uso político delas. Vejam quantos radialistas acabam eleitos. E quantos políticos são donos de rádios. Para esses todos, volume baixo ou, simplesmente, off (sim, porque nem o meu radinho portátil AM/FM, que é verde-amarelo, vem com o "desliga").

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Me cita nesta tribuna

"Os acúmulos do senhor socializados com esse par"
"A concretude dessa grande obra"
"A grandiosidade dessa grande pessoa"
"Estes são apenas UM dos problemas da cidade"

A melhor comédia da TV passa no canal 16 da NET. Não perca. Terças e quintas à noite, com várias e várias reprises ao longo da semana.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Averiguaram a vaca


3h15
O horário está registrado no celular do plantão. As primeiras palavras, puro reflexo:
- Luiz, do Diário.
- Luiz, é o Flávio da portaria. O pessoal da Brigada ligou pra dizer que tem uma vaca lá na frente do CO (Centro de Operações da Polícia Civil).
- Como é que é? Uma vaca? Daonde?
- Lá de Itaara, acharam aqui em Santa Maria. A sargento Mara diz que sempre pedem pra eles avisarem das boa. Se a gente não for, tenho de avisar ela. Que aí eles ficam com a vaca lá mais um pouco.
- Pode deixar que eu mesmo vou. Pode avisar.

É o tempo de vestir calça, camiseta, blusão e casaco. Mais touca. Achei que estava um gelo na rua, mas não. Chamei um táxi do ponto da esquina e me fui pra delegacia da Andradas. E não que tinha uma vaca mesmo? Amarrada numa grade dum corrimão da entrada do CO. Quietinha ela. Bem tranqüila. Ali perto, três PMs. Dois homens e uma mulher. Fui pegando a história e batendo foto. A Andorinha (o nome da novilha) se incomodava um pouco com o flash, mas não fez escarcéu.
Enquanto isso, o futuro dono da vaca discutia o preço do transporte com outro cara que ia fazer o carreto da vaca. Afinal, ela já estava vendida a prestação pelo dono, que é de Itaara. 300 quilos de vaca por R$ 1 mil.

No final, lá se foi cada um pro seu lado. Menos a Andorinha, que foi socada numa Kombi. E não estamos falando da Kombi de carroceria aberta. Não adianta, não tem horário pra ver coisas muito estranhas.
Depois dessa, voltei pra casa. Eu, ao contrário da Andorinha, podia escolher.


sábado, 3 de maio de 2008

Um sábado










A vida em comunidade


Há dias, venho falando em comunidades virtuais coisa e tal. A vida real é muito melhor, claro. Mas também tem suas complicacões. Em condomínio, então, nem se fala. Volta e meia, encontro com vizinhos falando mal da síndica. E daí encontro a síndica falando mal dos vizinhos. Tudo é motivo. É o lixo, a porta mal fechada, as taxas, o horário do zelador, a limpeza...

O barulho é um capítulo à parte. Até não me queixo das sertanejas de um condômino, porque também detono o meu rock n'roll. Um tempo atrás, rolavam umas animadas partidas de truco no apartamento de baixo. Eu jarava que ia rolar morte no jogo, tamanho o gritedo. Mas não me incomodava, porque durmo pesado. Agora mesmo, está rolando uma obra num dos apartamentos do prédio. Continuo não dando bola. porque tenho o sono dos justos. E nos horários de bateção, estou sempre acordado de qualquer jeito.

Mas tem vizinho que está incomodado mesmo, como dá prá ver nesse bilhetinho grudado na porta do apê em obras. Parem com isso, chamem o Tim Maia.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Alô, comunidade

Este blog chega aos 20 links de outros blogs. Já é uma comunidade. Já estou linkado em outros também. E gente que conhece os outros vem me conhecer. E eu conheço os amigos dos outros. Um teórico diria que o conceito de rede é um elemento estruturante das relações cognitivas e sociais, sobretudo com a expansão dos serviços telemáticos.
Tá, vou dormir. Boa-noite.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

FDP



Gabriel O Pensador vai estar em Santa Maria neste sábado, primeiro dia da Feira do Livro. Vem para um bate-papo, às 19h. Essa visita me fez lembrar de uma história dos tempos de assessoria de imprensa em Viamão. Faz uns 8 anos, eu acho.


Como estagiário, não tinha moleza. Sábado, domingo, feriado... Cinco horas, segunda a sexta, só no papel. Pense tudo em que é possível virar relise numa prefeitura de uma cidade enorme em extensão e população, grudada em Porto Alegre. Bom, rolava inauguração de tudo, até de banheiro. E tínhamos de acompanhar o prefeito em tudo o que é evento, até aniversário de cachorro. E ainda tínhamos de fazer o cerimônial dos eventos. E foto disso e daquilo. E um jornal mensal. E largar os relises nos veículos de comunicação. E ler todos os jornais, todos os dias, pra fazer clipping. E ouvir e gravar programas de rádio. E fazer o texto e a arte de materiais de divulgação. Certa vez inventaram até uma rádio poste. Quem produzia e apresentava os programas? Tchan tchan tchan tchan... Os estagiários!

Eram uns 10. Mais um jornalista CC de chefa. Mais uma jornalista-taipa-concursada. Mais uma RP CC. Tudo isso numa sala 3x4. E dois computadores, disputados a tapa. Três mesas. Em dia de reunião, uns ficavam do lado de fora, espiando pela janela.

Foi um período de muito trabalho, muita aprendizagem e muita amizade (a convivência com a Elaine é uma boa lembrança dessa época). Além disso, era de dar risada.

Certa vez, me matei de rir, por dentro. O que nos remete ao Gabriel O Pensador. Era uma manhã de sábado. Estagiário cuja prioridade era a Secretaria de Educação, lá fui eu fazer uma "cobertura" de inauguração da ampliação do refeitório de uma escola municipal. Rolava um rango legal, preparado pela comunidade. Essa parte era bem divertida. Tirar foto também valia.

Bom, durante a inauguração (com corte de fita, coisa e tal), havia apresentações artísticas dos "locais". Valia de tudo, o que era bacana. Dança, banda, solo, declamação e por aí afora.

Nessa tal escola do refeitório, o rap era predominante (cultura hip hop domina, ou dominava, a cidade, ao lado do tradicionalismo). Pois bem, lá se foram três preguinhos, entre 10 e 11 anos. Anunciaram que iriam cantar um rap, largaram uma base nas caixas de som e começaram:

"Os fdp vive arrumando desculpa..."

E lá veio o refrão: "fdp fdp fdp fdp fdp fdp..."

O prefeito ficou sério. O secretário de educação virou de lado. A secretária do prefeito (e mulher do secretário) ficou vermelha. As professoras sorriam amarelo... E eu vibrava por dentro. Queria dar gaitadas, mas iria ficar chato.

Foi o dia em que Gabriel O Pensador (a música é dele) divertiu minha existência. Viva a comunidade. Salve o imprevisível.


***


E bom bate-papo tem domingo, às 19h. De Porto Alegre para Santa Maria, vem o Sarau Elétrico. O profe Luís Augusto Fischer, a escritora Cláudia Tajes e a locutora Katia Suman vão ficar um tempo conversando sobre literatura. Garanto que eleva o espírito. Ponto para a Feira do Livro.


quarta-feira, 30 de abril de 2008

Pau-ferro


"Has he lost his mind, can he see or is he blind..." Saí do cinema com a música do Black Sabbath na cabeça. Foi mais ou menos assim: me senti um pouco adolescente depois de ver o Homem de Ferro. Primeiro, é um espetáculo visual. Os efeitos especiais são perfeitos para as cenas de ação no solo ou nas alturas. Sensacional a cena em que ele é perseguido por dois caças.

Segundo, é baseado em uma história em quadrinhos da Marvel que nunca havia ganho uma chance de chegar às telas. E olha que o Iron Man já tem mais de 40 anos. É do tempo da Guerra Fria.

Mas o herói não chega enferrujado ao século 21. Ganha atualidade com a história (meio boba, vamos combinar) do milionário que, depois de ser capturado e conseguir escapar de guerrilheiros afegães, resolve sair voando por aí numa armadura vermelha e dourado. A aventura faz com que ele repense a indústria de armas da família.

Moralista como pode ser, mas com um toque legal de canalhice, injetado por Robert Downer Jr. (aquele que teve problemas com drogas, mas que um dia já foi Chaplin). Pois não é que ele exala ironia (e bem)? Ao lado de Jeff Bridges (o vilão careca, quase irreconhecível), é um dos destaques do filme.

Para fechar na boa, Iron Man do Sabbath. Não dá para esquecer que lá, bem no início, tem Back in Black, do AC/DC. Diversão heavy metal do começo ao fim. Custou R$ 4 voltar aos 15 anos por duas horas. Bem mais barato que uma aplicação de Botox.


***


Última sessão do Iron Man em Santa Maria. Estréia mundial. Lotadaça. Fila do Gargarejo. Pipoca. Bib's. Peguei na mão dela. Público comportado. Meia-entrada. 2 elevadores. Celulares quietos. Evolução. Luz, câmera, ação.

Chegou a hora

Tem dias em que você termina o dia de trabalho se sentindo um lixo. Acordou cedo, tentou facilitar a vida de todo mundo, não foi mal-educado com ninguém, esforçou-se etc etc etc. Mas, no final das contas, não adiantou nada. Em alguns segundos, vem alguém e, como se você não valesse nada, despreza parte do que foi feito, sem nem dar satisfação.
É nessas horas em que você se pergunta se é isso mesmo que quer na vida. Claro que há os momentos felizes. Mas certos instantes levam tão para baixo que apagam tudo de positivo. E esses são mais difíceis de curar.
Ou mudam os outros ou muda você. Como é mais fácil a mudança singular, chegou a hora de pensar nela. Senão vai haver uma hora em que o fundo do poço está bem mais perto do que a superfície.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Não sei nada!

Depois de fazer uma reportagem sobre blogs, fiquei angustiado. Cada vez leio mais coisas sobre o assunto e percebo que, na verdade, sei muito pouco. Aliás, aprendi várias coisas fazendo essa matéria, conversando com blogueiros e, claro, olhando os blogs dos outros.
O santaporto, na verdade, é uma chinelagem perto do que tem por aí. É uma formiguinha. Para me tornar alguém na blogosfera, vou ter de ralar muito.
Mas, pelo menos, sei que este blog motivou muitas pessoas a fazerem o seu. Ele também me inspirou a fazer uma reportagem para a Revista Mix, a primeira depois de quatro anos e meio de Diário de Santa Maria. Já são alguns pontos a considerar.
Esse trololó é para contar que pretendo me dedicar ao assunto, academicamente falando. Não só aos blogs, mas aos novos formatos de comunicação em geral. Até coloquei uns links novos aí do lado, para compartilhar com os visitantes. Façam bom proveito e dividam comigo suas dúvidas e descobertas. Quem sabe assim fico menos angustiado.

domingo, 27 de abril de 2008

Até na testa

Ano passado, por uma série de coincidências e imprevistos, acabei interrompendo um sábado de descanso para virar repórter. A pauta era a campanha nacional de vacinação contra a paralisia infantil. Aquela coisa de sempre. A única quebra de rotina foi uma cover da Xuxa em um posto de saúde. Ela até assustava algumas crianças, mas não deixava a desejar em animação...
Entra mãe, sai filho, gotinhas para lá, choros para cá... Nada extraordinário. Até que uma enfermeira faz uma proposta:
- Vocês não querem tomar uma vacina contra a gripe?
A proposta era para mim e para o fotógrafo Claudio Vaz. Até brinquei:
- Mas, bá, pode aplicar até aqui na testa.
Claro que a enfermeira não riu. Afinal, a piada era ruim e velha. Mas eu tenho certeza que, no seu rosto, havia um sorriso sádico no momento em que meu braço estava nu, à espera da picada. Não fiz escarcéu. Talvez por isso ela tenha ficado um pouco decepcionada...
Faltava ainda um mês e pouco para o fim do inverno. Depois disso, gripe nunca mais. Apesar de eu não ter chegado aos 60 anos (meu figado, talvez), posso até dar depoimento na TV, a favor da vacina. Ela funciona!
Lembrei dessa história porque estou há dois dias com o nariz fungando, tossindo e com dores pelo corpo. Não sei se tenho febre, pois termômetro é uma coisa ausente da minha casa. Enfim, uma maldita gripe me enganou, me atacou antes do inverno. Felizes são os velhinhos que ainda não foram atacados por esse vírus sorrateiro e puderam se prevenir com a campanha de vacinação deste ano, que começou no sábado.
E quanto a mim? Agora, só me resta a Coristina, o Melagrião e a cama. Assim que esse mal-estar for embora, vou tomar aquela injeção de novo. Quanto mais sádica for a enfermeira, melhor. E, se for na testa, não tem problema.

Tempo frio, cores quentes





Se você estava de ressaca no sábado de manhã, em Santa Maria, perdeu esse amanhecer... Como sou um rapaz estudioso, levantei cedo e resolvi socializar essa visão com esse pessoal que afunda o pé na jaca ou vai dar risada no César Menotti & Fabiano.



***


Em tempo: peço desculpas àqueles que visitam este blog pela ausência durante uma semana. É que, com tanta coisa para estudar e escrever, não deu. Mas tudo voltou ao normal agora.

sábado, 26 de abril de 2008

Sem passar despercebido

Lance Luiz Roese entre aspas no Google e você vai descobrir que eu fiz reportagens sobre acidentes, operações policiais, treinamento da Brigada Militar, rebaixamento do Guarani de Bagé e sobre o leão que atacou um menino no circo e foi eletrocutado (esta a de mais aparições no buscador), entre outras. Ainda dá para achar uma foto que eu fiz quando estava na faculdade e descobrir que eu sou fã de Nei Lisboa e trabalho no Diário de Santa Maria. Para completar, o Google revela que eu moro em Santa Maria e tenho este blog (que, por sua vez, mostra muito sobre mim).
Já os que sabem meu nome completo podem descobrir o tema da minha monografia no Jornalismo da UFRGS (e quando eu a defendi) e ainda que eu fui selecionado para uma especialização na Unifra.
É de assustar que, só pelo Google, seja possível descobrir tanta informação sobre mim. Se juntar com o Orkut, então... Ou seja, não posso mais desaparecer, pelo menos virtualmente. Não vejo prestígio em ser citado cerca de 200 vezes no site...
É um reflexo do momento atual. Cada vez mais temos menos privacidade. Se quisermos viver em sociedade, é indespensável ter celular e e-mail. E ambos podem ser monitorados. Nas ruas, temos câmeras. E, na Internet, quase toda uma vida revelada. É o preço que se paga por fazer parte de uma comunidade. Seja ela real ou virtual. Assim que funciona: Big Brother ou exclusão. O que você prefere?

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Dá lucro, sim

Ter alguém ao lado é um sistema não-capitalista. Você faz trocas: de idéias, de carinhos, de momentos, de segredos, de idéias, de prazer, de sentimentos... E, no final das contas, dá muito lucro.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Vem aí uma decisão


Não lembro exatamente quem era o adversário. Só recordo de um domingo meio frio e chuvoso. E não fui nem para as arquibancadas, ocupei um lugar nas cabines de imprensa do Presidente Vargas, para fazer companhia ao repórter Carlos Ferreira. Isso faz uns três anos.

Que choque de realidade! O estádio, praticamente vazio. O gramado, um potreiro. E o jogo? Bah, sem comentários. Chutão prá lá e prá cá. Zero lance de brilho. Confesso que me decepcionei e pensei em nunca mais voltar. Parte importante: o Inter-SM ganhou. E continui freqüentando a Baixada Melancólica (no início, pensei que o estádio era apelidado assim por causa do nível futebolístico, mas não, tem relação com a proximidade do Cemitério Ecumênico).

De lá para cá, tudo mudou. Agora, as arquibancadas lotam, o gramado deixa a bola rolar tranqüilamente, e o nível futebolístico é incomparável à perebice de outrora. Só uma rotina continua: ao acompanhar o jogo no estádio, nunca, mas nunca mesmo, vi o Interzinho perder. Se a escrita for mantida, a presença do time de Santa Maria na final do Gauchão está garantida.

Claro que agora o nível de exigência é bem maior. E é difícil continuar como pé-quente para sempre. Mas, pelo menos neste domingo, dá para acreditar que nada vai mudar. Pelo menos no jogo contra o Juventude. Basta um empate. Os deuses do futebol não seriam tão travessos assim.

Para o time que me deu a oportunidade profissional de escrever uma crônica de jogo e manteve o meu deleite de freqüentar um estádio de futebol (como já escrevi aqui), minha homenagem e minha torcida. Para os supersticiosos, uma certeza: estarei lá no domingo (o Maurício, que não fica prá trás em matéria de "pé-quentismo", também).

terça-feira, 15 de abril de 2008

Espirito libertário

Dá para dizer, sim, que esse blog mudou minha existência. Pra mim, é um deleite escrever sobre qualquer assunto. E o santaporto me deu esse espaço.
Como tá no meu perfil, sou jornalista. Logo, sou pago para escrever. Mas a profissão não se resume a colocar as linhas no papel. Não vou nem falar no fato de que o cara pode ser de TV ou de rádio e passar sua mensagem somente com a voz ou com o gestual + voz. Mesmo trabalhando em um jornal, existem dezenas de funções que não são relacionadas diretamente ao trabalho de produzir um texto.
Sem falar nos limites. Como empregado assalariado, há regras a seguir. Em um veículo de comunicação de massa, a mensagem tem de atingir um público médio, que até pode se ofender com o que eu escrevo aqui. Ou achar tudo uma grande babaquice, um instrumento de megalomania.
Por isso, valorizo essa liberdade textual. E me sinto muito bem com ela. Esse é o espírito dos blogs. O santaporto, por exemplo, tem diário, resenhas culturais, fotos, recados para os amigos e, até, desabafos.
Ao fazer uma pesquisa em blogs de Santa Maria, deuuma certa felicidade ao ver que muita gente anda se libertando das amarras e colocando um pedaço de si para o mundo. Tem de tudo. Da vovó que coloca poesias e fotos à adolescente que dá opiniões firmes sobre o que enxerga. Daos professores que criaram um canal de ligação com seus alunos às artesãs que vendem chaveiros ou bonecas. Exposição pura e, acredito, sinceridade. Construções individuais que formam um coletivo sem homogeneidade, com diversidade.
Até onde isso vai, não sei. Se é uma moda, também não consigo dizer. Mas é um retrato do nosso tempo. E sem censura, o que é o mais importante. Se você não gosta de alguns blogs (ou até deste), tem o direito de criticar. Assim como quem os faz tem o direito de não ligar para o que você acha. Liberdade é assim mesmo.


Em tempo: pra não dizer que tem blog de tudo, olha essa chalaça aqui.

domingo, 13 de abril de 2008

Amigos para sempre

Em apenas duas semanas, pelo Orkut (e eu que falava mal dele...), encontrei duas amigas que foram muito importantes na minha vida, a Gisleine e a Luciane. As duas, em épocas diferentes, dividiram a sala de aula comigo. Nem foi tanto tempo assim, mas valeu para a vida toda.

A Luciane foi minha parceirona, um ombro amigo que me consolava e me animava. Ela sempre me ajudava (ou tentava) a fazer meu lado com as gurias de quem eu gostava. E aprontamos muita coisa juntos... Mesmo quando ela saiu da Azenha prá morar com uma tia em Teresópolis e já não éramos mais colegas, ainda mantivemos contato por um tempo. E, durante anos, ficava sabendo das notícias pela mãe dela, que cortava o meu cabelo.

A Gisleine morava a umas duas quadras da minha casa. E sempre voltávamos a pé da escola. Muito mais do que minha primeira paixão, ela se tornou uma grande amiga. Mesmo depois que a Gilseine se foi de Porto Alegre, trocamos cartas por algum tempo. Cartas, acredita? Era uma era pré-internet. E até hoje guardo aquelas correspondências. Que podem ser inocentes, mas de fundamento.

A sensação desse reencontros, mesmo que eles sejam ainda virtuais, é indescritível. A Luciane e a Gisleine tiveram grande significado na minha vida e saber que elas estão bem é sensacional. Que alegria vocês me deram, amigas! E como é bom, 20 anos depois, ainda podê-las chamar assim.

Testando limites

É uma peça de teatro, mas não há palco nem platéia. Em Provokações - Labrinto Teatral, os protagonistas são alunos do curso de Iniciação Teatral da Escola de Artes Eduardo Trevisan (Emaet), mas o espectador também acaba virando ator.
Você entra dentro de um cenário e passa por situações incomuns, interagindo com os verdadeiros atores. O lance é acompanhar o trajeto em uma espécie de labirinto com objetos, tecidos, teias e sons. Ao longo da trajetória de perfomances, os sujeitos tentam despertar as reações de quem os visita. Pode ser meio de olhares, sussuros, danças, toques ou massagens. É uma experiência forte, que testa os limites. Tem que estar preparado.
Seja qual for o seu mundo, sai de lá diferente. Mesmo ao repetir a dose, na Casa de Cultura de Santa Maria, continuo achando tudo muito estranho. E quero mais.


"Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.
Outros olham para baixo,
procurando algum vetígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada."
(Rumo ao Sumo, poema de Paulo Leminski que é sussurado durante Provokações)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cheiro de filme bom


No início, vem o título: O Cheiro do Ralo. Logo depois, um close em uma bunda feminina andando pela rua. Não demora muito, e aparece um protoganista insuportável, cuja frase para definir sua vida é "Eu não gosto de ninguém".
Como esses elementos, pode parecer difícil gostar de um filme desses. Mas bastam alguns minutos para notarmos algo diferente. A começar pelo Selton Melo, que deixa de lado seus cacoetes costumeiros para encarnar um crápula, um canalha. Ele é Lourenço, dono de uma loja de penhores que sempre avalia com um certo desprezo as mercadorias recebidas. Do banheiro do local de trabalho, vem um cheiro insuportável do ralo, que parece impregnar sua vida cheia de falhas e ausências.
Obcecado por uma mulher - ou melhor, pela bunda dela -, ele vai levando sua vidinha ordinária. Pela loja, desfilam tipos que vão do trágico ao hilariante. O roteiro tem diálogos que fazem você querer ouvir algumas coisas novamente. Até mesmo as grosserias costumeiras de Lourenço são engraçadas.
Tem figurino, tem direção de arte, tem fotografia. E conta bem uma história, criada pelo quadrinista Lourenço Mutarelli. Já conhecia os grafismos dele, e nunca imaginei que o cara pudesse criar uma história tão cruel com tanto humor negro e que ainda ela virasse filme. Para completar, ainda deu uma de ator, sem dever nada prá ninguém, no papel de segurança da loja, com seu indefectível terno vinho.
Para essa avalanche de filmes estilo Rede Globo, um antídoto pode vir de criações como o Cheiro, onde tudo é feio, mas o resultado final é lindo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Riscos existem. Eu rabisco

Lá se vão 10 anos de carreira no jornalismo, entre coluna em jornal de bairro, estágio em prefeitura e jornais diários. Nesse tempo todo, dá para contar nos dedos as vezes em que minha integridade física correu algum risco.

A primeira ocorreu em 1999, quando ainda era um mero estagiário da prefeitura de Viamão, na Região Metropolitana. Só que lá estagiário era gente. Até demais. Trabalhava bem mais de cinco horas e, quase sempre, ainda ficava engatado no fim de semana.
Pois foi numa noite quente de sábado que vi a morte de perto. E não foi nada tão poético como em O Sétimo Selo, do Bergman. Minha tarefa era fotografar o 1º Festival de Hip Hop, na Praça Júlio de Castilhos, no Centro. Um palco foi montado entre o Centro Administrativo e a Casa de Cultura, bem no Centro, para receber cerca de 30 grupos "de mano". Ah, eu também tinha de escrever a respeito, claro.
Passava das 10 da noite, e tudo ia bem. Não sou brigadiano, mas arrisco que havia umas 500 pessoas prestigiando o festival. Lá pelas tantas, bem do lado do palco, rolou uma pancadaria. Até aí, tranqüilo. Eu estava em cima do palco, bem de canto, só olhando a confusão. E não é que um maluco resolve sacar um revólver? Bom, a bala comeu. Até hoje não consegui assimilar quantos tiros foram dados, mas arrisco que chegou a meia dúzia. Ainda bem que o cara era meio perturbado. E muito ruim de mira.
Os disparos foram a esmo e não acertaram ninguém. E hoje até acho graça da correria. Saiu gente para tudo o que é lado, em tempo recorde. Inclusive o atirador. Eu não me mexi. Fiquei meio catatônico com aquilo tudo.
Já tinha visto tiroteio de perto quando criança, depois de um assalto a banco no Menino Deus. Também já visitei a casa de um amigo bem na hora em que o namorado da irmã dele, com um três-oitão, resolveu fazer a residência de alvo, no Partenon. Mas nada como essa experiência na vida adulta, na profissão.
Depois do tumulto, alguns manos continuaram a mostrar sua poesia. Só que muitos refrões pedindo paz perderam o sentido naquela noite. Tanto que menos de 50 pessoas permaneceram fiéis ao festival. Nem a Brigada Militar ficou, talvez porque a maioria era negra e pobre.
Episódios como esse revelam quão frágil pode ser a vida. Não fui herói nem pretendo ser, a não ser que a situação exija muito. Afinal, penso nos que gostam de mim e que gostariam de continuar tendo a minha presença por perto.

Lembro tudo isso porque fiquei sabendo nesta segunda-feira, Dia do Jornalista, que algumas pessoas querem a minha cabeça, literalmente, por conta de coisas que escrevi no jornal. Não tenho medo, mas prometo que vou me cuidar. Pois quero continuar atualizando este blog por um bom tempo.

***

Aguarde. No próximo capítulo das situações arriscadas, o dia em que, entre a Santa e o Porto, tinha um assalto a carro-forte.

Que venha o Juventude

Ainda bem que o Inter-SM existe para me consolar. Porque o Grêmio...
Confesso que até ando torcendo mais para o time de Santa Maria, pelo menos no Gauchão. Para quem assistiu partidas na Segundona, com jogadores meia-boca, gramado podre e arquibancada vazia, dá um orgulho agora de ver o Interzinho entre os quatro melhores no campeonato e o estádio cheio. Que venha o Juventude!

sábado, 5 de abril de 2008

A bela dor de Piaf


Marion Cotillard. Não a conhecia e não vou esquecê-la tão cedo. Vencedora do Oscar de melhor atriz pelo papel-título de Piaf – Um Hino ao Amor, essa francesa opera uma transformação física radical no filme. De uma jovem faminta e desbocada ela vai até a mulher enrugada e frágil que, no final da carreira, mal conseguia ficar de pé sozinha. Irretocável na expressão corporal e na dublagem de canções, ela chega para arrasar na última cena, na qual Piaf dá seus últimos suspiros artísticos na interpretação de Non, Je Ne Regrette Rien (Não, Não Me Arrependo de Nada), uma das últimas canções que gravou.
Em tempos tomados pela insensibilidade, o filme-biografia mostra o quanto a dor pode ser bela e nos ensinar a viver o amor e a se revoltar. Depois de uma vida nada comum, a cantora francesa morreu em 1963, aos 47 anos, com a aparência de quem tinha muito mais do que essa idade, em razão de reumatismo, muita morfina e doses cavalares de infelicidade.
Dá para ficar refletindo horas a respeito. No caso de Piaf, que foi abandonada pela mãe, chegou a viver no bordel da avó e quase ficou sem poder enxergar com seus belos olhos azuis, o talento extraordinário foi uma espécie de destino. Pode não ter anulado os outros destinos traçados para ela, mas foi forte o suficiente para guerrear com eles e superá-los. Sobrou dor. Mas esse sofrimento todo não apagou o que de mais lindo havia em Piaf.

"Não, absolutamente nada
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal
Isso tudo me parece indiferente

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Está pago, varrido, esquecido
Dane-se o passado

Com minhas lembranças,
Eu alimentei o fogo
Minhas mágoas, meus prazeres
Eu não preciso mais deles

Varridos os amores
Junto a seus aborrecimentos
Varridos para sempre
Vou recomeçar do zero

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, tudo me parece igual

Não, de jeito nenhum
Não, não me arrependo de nada
Pois minha vida
Pois minhas alegrias
Hoje
Isso tudo começa com você"
(Tradução de Non, Je ne Regrette Rien, imortalizada por Edith Piaf)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Não peça ajuda aos universitários

Por que, num centro universitário, é preciso colocar um cartaz no banheiro com os seguintes dizeres: "Favor dar a descarga após usar o vaso sanitário". E por que a maioria dos usuários do tal recinto, depois de secar as mãos ou limpar a bunda, não joga o papel dentro da lixeira?

Gente estudada, de bom nível social.
É de pensar no assunto.

Heroína




Não são muitas pessoas que podem se orgulhar de ter salvo vidas sem ser bombeiro, policial, médico e até veterinário. Pois a Bruna Porciúncula, que é jornalista, tem isso no currículo. Já tinha adotado a Lídia. Mais recentemente, pegou uma ninhada de quatro ou cinco cães que tinham sido abandonados por alguém de maldade extrema. Os bichinhos eram recém-nascidos e ainda nem abriam os olhos...

Pois a Bruna não se fez de rogada e perdeu várias noites de sono para salvar essa gurizadinha. Alguns não sobreviveram e, de noite, vão puxar o pé de quem os abandonou, tomara. Mas um casalzinho está são e salvo. E os dois filhotes são lindos, como dá prá ver nas fotos acima. Parabéns, Bruna, você nos faz ter esperança na raça humana.

As origens 2

Entre 1984 e 1986, o Correio do Povo ficou fechado. Antes disso, o Breno Caldas tinha torrado uma grana na TV Guaíba. Depois de um tempo, não teve como segurar o rojão. Apesar de não ter o hábito de olhar o velho Correio na infância, fiquei sentido. Porque não via mais os caminhões passando carregados de bobinas de papel ou de jornais empacotados. Enxergava tudo isso da porta da loja de vinhos e bebidas da família na Getúlio Vargas, em Porto Alegre. A uma quadra dali, ficavam as oficinas do Correio do Povo. O prédio administrativo foi preservado e restaurado pelo Zaffari, mas o megagalpão onde o jornal era impresso virou hoje um hipermercado dessa empresa.
A volta do Correio, já nas mãos da família Ribeiro, foi marcada por uma campanha maciça, em que a assinatura era de graça. Então, muita gente, mas muita gente mesmo assinava o tablóide repleto de notícias resumidas. Inclusive eu.
Naquela época, saía pela manhã para ir à aula. E cruzava a pé todo o bairro Menino Deus para chegar até a Azenha. No caminho, as casas eram sem grades, os prédios de portas abertas e sem interfone. Cenário propício para uma travessura: eu e um vizinho, que estudava na mesma escola mas numa série abaixo, íamos arrecadando quase todos os Correios pelo caminho. Depois, chegávamos na aula e os distribuíamos para os colegas. Tudo bem que o jornal era de graça, mas hoje não vejo muito sentido em tudo isso. Mesmo fazendo parte do mundo do crime, dá pra dizer que foi meu primeiro emprego no jornalismo...

Hoje, o jornal é da Igreja Universal do Reino de Deus. Triste. Mas antes isso do que fechar, botar gente na rua e deixar de fazer parte da concorrência.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

As origens

Quando era bem piá, lá pelos 5/6 anos, ainda não sabia ler, mas o jornal já me causava algum interesse. Hoje, fazendo uma retrospectiva, lembro que a "culpa" foi do meu avô, Luiz Alberto Martins Fagundes, que faleceu quando eu tinha uns 10.
Eu ainda morava em São Paulo, terra em que nasci por força das circunstância. Eu e meu irmão somos os únicos da família inteira que nasceram lá, por causa do trabalho do pai. Voltando ao jornal... Meu vô e minha vó costumavam sair de Porto Alegre e ir à capital paulista, via ônibus da Penha, para visitar.
Nesse contexto todo, há lembranças peculiares. Primeiro, que lá em casa o jornal escolhido era O Estado de S.Paulo. Outra: o Estadão costumava colocar a cidade de origem de suas notícias de uma forma destacada, no início de cada texto.
Apesar da tenra idade, eu já identificava algumas palavras, graças ao hábito de olhar as revistinhas da Disney, muitas delas herdadas do meu irmão. Uma das expressões que sabia identificar bem era "Porto Alegre". Quando meu avô estava em São Paulo, eu costumava folhear o jornal de cabo a rabo, sempre procurando por notícias da cidade em que ele morava. Quando achava um "Porto Alegre", ia correndo mostrar pro vô.
Mais tarde, fui morar na cidade que aparecia no meu cabeçalho favorito do Estadão. O primeiro ano e meio foi na casa dos meus avós, no bairro Partenon. Era entre 1981 e 1982. Todas as manhãs, eu ia até a "quitanda" do Nérso, numa das esquinas da João do Rio. Com 50 centavos dados pelo meu avô, comprava uma Zero Hora. Os quadrinhos continuavam no top da preferência, mas eu também tinha uma atração pela Polícia e pelo Esporte. Claro que só pegava o jornal pra ler depois que meu avô fizesse a leitura dele, durante o café da manhã.

Não sei se isso tem alguma relação com o que eu me tornei. Mas a lembrança vale, porque estimula. Imagina se tem por aí algum piá fazendo o que eu fazia? Que tenha uma ligação afetiva com esse maço de papel...
Tá, tô numa fase bem sentimental com o jornalismo, eu sei. Provavelmente porque agora, fora da redação, posso discuti-lo enquanto conceito. E, para isso, busco no passado muitas lições. Assim, enxergo de forma mais lúcida o futuro.



Falado em resgate, vale dar uma olhada na fase nostálgica do Cacto.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Histórias do jornalismo II

Terça-feira, 23 de janeiro de 2001. Era mais um dia na minha vida de frila não-formado na Geral da Zero Hora (o milagre do diploma só ocorreria no final de 2003). Fazia tarefas importantes, mas nada emocionantes: notinhas para serviço e para o Informe do Ensino e o obituário (aprendi um monte com ele, não riam).
Enfim, o início da noite chegou com uma chuva daquelas sobre a capital gaúcha. O telefone não parava de tocar. Alagamento aqui, engarrafamento lá, e muita reclamação. Daqui a pouco, chega a notícia de que havia uma lotação presa no meio de um metro e meio de água, sob a passarela do Parque Moinhos de Vento, o Parcão, na Avenida Goethe.
Para quem não conhece, um parêntese: era histórico que aquele local algava em dias de muita chuva. Fazia parte da cultura porto-alegrense.
O mais inusitado daquela noite não era a lotação. No mesmo cenário, havia um jet ski (!) dando umas voltinhas. A essa altura, não havia repórter para ir até lá. O fotógrafo Mário Brasil já estava no local. Quem? Quem? Quem poderá ajudar?
Nem pensei duas vezes quando me pediram pra ir. Com aquela confusão pela cidade, o jeito foi pegar um táxi, pois não havia mais "viaturas" no jornal. Depois de enfrentar um engarrafamento-monstro na Avenida Ipiranga e ficar aflito por achar que perderia a história, cheguei até o lago na Goethe. A lotação estava lá. O jet ski, também. O fotógrafo estava com tronco dentro d'água. O equipamento era segurado acima da cabeça.
Bom, se eu quisesse contar mesmo aquela história, tinha de encarar. Pior que, dias antes, um colega repórter havia sido internado para tratar de hemorróidas (argh!). Depois de ter trabalhado numa enchente... Pensei: o que é uma dor no rabo perto de uma grande história? Azar, fui.
Fiquei até com medo de me afogar, pois não sou um modelo de altura. No meio daquela água podre, fui me deslocando até a lotação. Ali pela volta, o empresário Milton Chies fazia acrobacias com seu jet ski.
Encharcado e fedendo, entrei na lotação. Falei com o motorista e os dois passageiros. No fundo, todos curtiam a "aventura". Mas o mais animado era o dono do jet ski. Ele morava ali perto e resolveu pegar seu brinquedinho só para se divertir.
- Em outras enxurradas, já pensei em fazer isso. Desta vez, não resisti - disse, na época, para este repórter.
O bon vivant acabou virando um herói involuntário: tirou os dois passageiros da lotação. O motorista ficou no veículo, como um bom capitão que não abandona seu barco.
E eu recebi de brinde uma baita matéria. O fotógrafo, uma foto na capa da segunda edição. Naquele dia, senti o prazer inestimável de contar uma boa história. Me ralei, mas não tive hemorróidas nem leptospirose...


Em 2005, uma matéria no jornal porto-alegrense tinha o título "Jet ski na Goethe, nunca mais". No mês passado, logo depois da inauguração do conduto Álvaro Chaves-Goethe, que promete resolver o problema histórico dos alagamentos naquela avenida, um vereador falou mais ou menos a mesma coisa em um discurso na Câmara da Capital. Se tem gente que não esquece daquela cena, imagina eu.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Histórias do jornalismo I

Nem sempre dá para se orgulhar do que se faz no jornalismo. Aliás, tem coisas que dá para se envergonhar, e muito.
O ano era 2000. O mês, dezembro. Quase no Natal, o IBGE divulgou dados preliminares sobre o censo daquele ano. Em um jornal de grande circulação, a pauta especial era falar sobre a proporção entre homens e mulheres. Uma "força-tarefa" estava encarregada do assunto. Do interior, uma correspondente escreveria sobre a pequena Guabiju, na Serra, que tinha 1.745 habitantes - 873 mulheres e 872 homens, pau a pau, ou melhor, pau a... Ah, deixa pra lá.
Uma dupla repórter-fotógrafo ficou encarregada de ir para a rua e catar uma boa foto que retratasse a maior proporção feminina-masculina do Estado, que ocorria em Porto Alegre. A imagem saiu do Parque Moinhos de Vento, o Parcão.
Outra frente se abriu, rumo a Charqueadas, na Região Metropolitana. O repórter iniciante e o fotógrafo experiente foram até a cidade para tentar descobrir um motivo para os números que davam conta de 2.382 homens a mais do que mulheres, a maior proporção desse gênero no Rio Grande do Sul. A gincana: reunir o maior número de pessoas do sexo masculino em uma foto.
Pois lá se foram os otários, que não precisaram mais do que 5 minutos para descobrir que Charqueadas tinha 4 presídios que abrigavam 3 mil detentos homens. Ou seja, eles estavam na cidade e contavam no censo, mas não saíam andando pelas ruas...
Primeiro, eles foram para a praça principal. Ué, cadê os homens? Quase todos trancados... Os pobres jornalistas bem que ligaram para a redação e avisaram o editor do absurdo que estava rolando. Do outro lado da linha, pura compreensão:
- Não interessa. Voltem com a foto.
Depois de tentar arrecadar homens no Centro e ouvir alguns xingamentos, eles colocaram a cabeça prá pensar. Hmmm, quem sabe a cidade tem um quartel? Não tinha. O mais próximo disso era um alojamento da Brigada Militar, na saída de Charqueadas.
Ao chegar lá, um pouco de esperança. Um tenente ouviu o drama, exposto de forma sincera, e topou o desafio. Com voz de comando, mandou que todos os policiais do prédio descessem. Detalhe: à paisana. Senão a farsa ficaria muito descarada.
A coisa melhorou significativamente. Já havia cerca de 10 homens para uma foto. Por sorte, ali perto, três piás jogavam bola. Juntaram-se ao grupo. Mais dois rapazes passavam a cavalo. Entraram no quadro também. Mais um a pé e mais um de bicicleta. Pronto, passou dos 15 e quase chegou a 20. O fotógrafo, que não era bobo, fez uma imagem mais fechada. Parecia uma multidão.
O repórter, depois de entrevistar uns 20 homens e não chegar a lugar algum, consegue, finalmente, uma declaração que editor adora:
- Bah, aqui nos bailes a gente chega a se tapear por mulher.
Missão cumprida, vergonha completa. E um baita aprendizado de como não se deve fazer.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Proibido para hipertenso


Só depois de algumas cervejas, churrasco à vontade e goles de tequila é que fui perceber. O que faz mal, mesmo, é o tal do cloreto de sódio.

E por falar em...

Saudade. Quase sempre vira metáfora: "soprou um vento", "invadiu neu coração", "tomou conta da casa" "aperta no peito"... E por aí vai. Tudo muito bonito. Mas, na hora de sentir de verdade, dói. Ainda bem que não é incurável.

E ainda bem que dá pra sentir falta de um dia muito bom sabendo que ele pode ser igual ou melhor nas 24 horas seguintes.

Por último: não gosto de ficar acompanhando a partida de um alguém muito querido até a porta se fechar, o motorista dar a partida e o ônibus deixar o box. É masoquismo, acredite. Ale, até bem breve. Prefiro pensar assim.

Cinema sem reparação


Pois tudo funciona no novo velho cinema em Santa Maria, pelo menos na sala 2. As poltronas estão com todas as partes, o som Dolby digital se apresentou em dia, e não há reparos a fazer em relação à projeção. O saco é ter de esperar o elevador na saída do cinema, porque não há outro jeito de sair do Santa Maria Shopping. Mas um funcionário já me avisou que, em dias de mais público, as escadas estão liberadas. Menos mal. Nesse domingo, havia umas 20 e poucas pessoas para ver Desejo e Reparação na última sessão do dia.


Sobre o filme: surpreendeu positivamente. Não sou muito afeito a filmes de época ingleses. Via de regra, eles seguem com muito rigor a obra literária da qual foram originados. E aí a técnica cinematográfica não é bem aproveitada. Vide Uma Janela para o Amor, A Feira das Vaidades, Retorno a Howard's End... Se você gostou, desculpe. Mas, para mim, eles são chatos, muito chatos. Não vou generalizar: Razão e Senbilidade e Vestígios do Dia merecem ser vistos.

Desejo e Reparação vai nessa linha, ao contar uma história que se passa na Inglaterra dos anos 30, entre as duas guerras mundiais.

A história começa numa pomposa propriedade na Inglaterra. Lá vive a família Tallis, que se prepara para receber de volta o filho mais velho. A irmã mais nova, Briony, tem uma inaginação fértil que vai desencadear uma grande mudança no destino de todos os personagens. Por ciúme e por não entender bem o que acontece entre a irmã mais velha e o filho da governanta, ela acaba acusando o rapaz por algo que ele não fez.

A partir daí, o roteiro viaja pela vida dos personagens, mostrando como o futuro pode ser destruído por um ato impulsivo. No caso, o das irmãs e o do rapaz acusado. Nem quem inventou a história escapa, pois ela não consegue abandonar a culpa que sente pelo que fez. E só consegue buscar a tal "reparação" no último livro de sua longa carreira como escritora.

Surpreendente, de boa trilha sonora orquestrada (vencedora do Oscar), grandes atuações e com uma fotografia que leva do colorido da paisagem do interior da Inglaterra ao cinzento dos anos de guerra e de desencontros.


Filme bom, pipoca e boa companhia. Valeu o domingo.